segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Além do que se vê...


Você acha que me conhece?
Por quê?
Pelo que eu escrevo aqui...?
Pelo que você vê por aí?
Seria um mar de segredos inacabáveis, embora eu seja feita de uma água extremamente limpa e clara.

Tenho pensado e cobrado do espelho uma resposta que deveria vir dos ventos desse mundo.
Dos mesmos ventos que levam os meus passos a olhares tortos.

E tais olhares tem me batido de frente, me estampando cem paredes para que não haja motivos de comemoração no meio do meu caminho.
Isso me enoja.
Quem há de dizer que assim não se vive?
E quem haveria de cortar o próprio cordão umbilical e dizer que não foi pra isso que nasceu?
E dizem por aí que as pedras que me tacam são pra evitar que me aconteça coisa pior.
E dizer num olhar quase que estrupando as meninas virgens dos meus olhos que, horrorizados ao cair da minha máscara, hão de me mudar.

Tenho vencido e recebido meu cajado de ouro, no topo pra onde eu me mudei.
O topo mais alto do mundo.


Meu coração se abriu como um terceiro olho, observando as cores de todos os sorrisos.
Tenho descoberto cachoeiras em meio a grandes arranha-céus.
E tenho mergulhado nas mais suaves ondas, invejadas por muitos...
Tenho quebrado as pérolas, daquelas que não se arranham nem com mil machadadas de uma bigorna.
Tenho lido as linhas das mãos. Das minhas. Das delas.
Tenho me equilibrado nas quinas das calçadas, e dado gargalhadas nos quase tombos, rindo de mim mesma.
Tenho dado ouvidos a grandes lamentações e tirado as duvidas dos corações.
Tenho vivido e tenho sido quem eu sempre fui.
Por isso, pra esses olhares turvos que vem pra atingir, deixo-lhes uma rosa branca a tampar a visão como fosse o meu olhar a lhes encarar.
A minha paz, esta que me segue ao lado, ninguém há de tirar.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009



Fragmentos
(Há alguns anos...)

sábado, 7 de novembro de 2009

E assim nos tornamos brasileiros.

Passei perto da ponte da saudade. Chamo ponte da saudade aquela em que a tia de um amigo escolheu para se despedir.
Num pulo ela se despediu. De olhos abertos ou fechados ela foi, e foi uma vez só. Não houve tempo de grito nem abafo. Nem um susto sequer.
Acordei em cólera. Acordei lembrando, e por ironia do destino - ou não - era o dia da minha prova prática de carro. Fui de carona com o meu pai.
Uma fila enorme de carros da auto-escola, e a ponte lá. Mas dessa vez, outra.
Havia, nesta ponte, uma vida. De repente duas. Três. Quatro, meu Deus!
As pessoas escolhem as pontes para quê? Para viver ou morrer? E por quê as pontes?
Seria isso uma busca?
Ora, usamos o termo "ponte" para muita coisa que no fundo significa esperança. A ligação de um lugar onde se está, para um lugar onde se quer ir.
Quando não falamos da forma mais banal, mencionamos Jesus como ponte entre nós, insignificantes mortais, e Deus.
Mas quando pensamos nisso, logo nos vem à mente atravessar a ponte. E aqueles que desistem no meio do caminho?
Temos, por fim, três escolhas: você atravessa, você desiste, ou você arruma um lugar no cantinho pra descançar e perder a viagem.
No mezanino desta ponte, roupas penduradas para secar. Havia geladeira, colchões. Havia vida. Havia vida?
Era uma moça que andava de um lado para o outro, gritando qualquer coisa. Enquanto o rapaz penteava o cabelo sem se olhar no espelho,
bolava um cigarro de maconha e saía fumando em direção ao supermercado com um carrinho de mão, cheio de badulaques.
E o povo assistindo.
Havia, sim, muita gente. Pessoas que evitavam olhar enquanto a mulher gritava. Ela gritava pro seu cachorro, descobri.
Mandava-o voltar pra "casa".
Uma mulher, um homem e dois cachorros. Nenhuma parede.
E a cena não me fazia o menor sentido, não me cabia na cabeça.
"Pai, e quando chover? Pai, e no frio?" A sorte é não haver criança que perguntasse isso aos próprios moradores da ponte, numa forte chuva, encolhido num cobertor fino:
"Pai, estou com medo do trovão"
Havia bem acima da cabeça daquela família, palavras pintadas e rabicadas, e dentre todas uma única palavra me fez, enfim, todo sentido: Luto.
Estavam enterrados debaixo de uma ponte, de modo quase invisivel e esquecido... Talvez mais invisível e esquecido do que a mulher que se jogou da ponte da saudade.
Amanheci, mais uma vez, de luto.


"Pela ordem - e alguma seriedade -
Luto por um país lindo,
Mas sem vergonha de
rir - quando deveria chorar,
relaxar - quando poderia lutar"

sábado, 31 de outubro de 2009

Sábado de sol...


As portas se abriram devagar, quase que automaticamente, para que eu pudesse sair.
Um sorriso logo depois da porta de vidro me apresentava o caminho a percorrer. Fui correndo para o ponto de ônibus, ansiosa com sei-lá-o-quê. Eu queria era pensar.
Entrei no ônibus quase que em câmera lenta e percebi que algumas pessoas que estavam sentadas me olhavam nos olhos ao me ver entrar...
Já olhou nos olhos de alguém querendo lhe conhecer a alma? Parecia que todos me olhavam assim, e eu os olhava assim de volta.
Ando desnuda, respirando o meu próprio ar. Ando sem corpo...
É assim que se sente, quando sente-se livre?
Alguns sentimentos simplesmente não tem nome, palavras são pouco demais perto de certos significados.
As palavras alcançam muito, sim. Mas muito ainda não é tudo, e nem além disso.
Sentei-me, e fiquei ali por um tempo, ouvindo música, esperando os quilômetros passarem.
E de alguma forma, minha visão panorâmica parou por alguns segundos: uma senhora se levantou para descer no seu ponto e segurou-se no banco para não cair.
Sua mão, grande e larga, estampou-se a minha frente. Uma mão forte, de quem trabalhou uma vida inteira e, acostumada com isso, recusa-se a descançar em pleno 70 anos de idade.
Olhei mais acima para que pudesse enxergar-lhe a alma, como havia já feito com algumas pessoas daquele ônibus.
E eu a enxerguei. Ela toda era forte, e viva, e era triste. Olhei-a como se quisesse muito dizer-lhe alguma coisa. O quê? Que diminuisse a sua tristeza.
Ela, vendo que eu a olhava, me olhou de volta e sorriu, como se tivesse entendido o que eu queria lhe dizer. Entende?
Ando sim, desnuda. E todos, como a mim, para mim desnudos.
E como eu fiquei grata àquele sorriso, e como parecia ela grata à minha compaixão.

sábado, 3 de outubro de 2009

Ascenção

Escrevi um texto um tanto quanto surreal... De qualquer forma, espero que entendam, pois como diria Clarisse: "a palavra é a minha quarta dimensão"...

De repente, os olhos dela se abriram de modo que o céu além das estrelas poderia ser visto, como um túnel levando ao infinito.
Sentiu suas mãos retomando os movimentos e numa vibração única de energia alçou vôo... O vento lhe acariciava os poros da pele à proporção que seu corpo se elevava, indo na direção do inalcançável e da perfeição...
Pôde ver a sua própria casa a metros de altura... Viu seu bairro e os movimentos sutis dos que descansavam sob a sombra das árvores. E deixou que sua inconsciência a levasse para o melhor lugar que sua mente poderia imaginar.
Atravessou oceanos, passando rasante pela pele dos golfinhos que deixavam a profundidade do mar a brincar de serem livres como as aves... E pelo mesmo oceano, desviou dos mergulhos violentos dos pássaros que invadiam o mar em busca do seu alimento.
Passou por cima de grandes navios de carga e descarga, descarregando naquele mar rios de combustível... E caçando a bel prazer os mais belos e incríveis peixes que, ao fundo, faziam do mar um arco-íris.
Perfurou nuvens, as mais suaves e densas, quase sólidas... E percebeu que não eram feitas de algodão, mas pura energia, e uma mistura dos dois mais opostos elementos: ar e água. E viu que essa mistura de ar, água e energia, numa parte divertia crianças e sonhadores que deitavam na grama a adivinhar o que cada nuvem lhe parecia. N’outra vinham-lhes como salvação de uma tribo de caras-pálidas que colocavam seus joelhos a rezar toda noite em busca de alimento para seus filhos.
E acompanhou trajetórias de alguns aviões, uns grandes outros pequenos, observando olhos de admiração, sonhos, medos, enjôos, ânimos, choros, sorrisos, desânimos, vida e morte...
E seguiu a sua rota, procurando os mais elevados montes para que descansasse um pouco da sua tão ampla visão, cheia de 360 graus. Viu a exata divisão de noite e dia, e a sombra que a Terra projetava na lua... E desceu...
Desceu...
Desceu...
Em algum lugar desse mundo ela desceu, encostando primeiro a ponta dos pés, depois os calcanhares, no mais alto penhasco que seus olhos puderam encontrar.
A visão era maravilhosa... Era a própria respiração da Terra fazendo-se física. Árvores em variados tons... Cascatas, lacrimejando suas gotas por todos os lados... Flores transformando-se em cores... Raios de sol a chicotear os picos congelados dos montes...
Abriu os braços e agradeceu por ter tal oportunidade de apreciar tanta beleza num só lugar onde tanta gente acredita fielmente que não haja mais espaço pra se criar.

Fechou os olhos e descobriu-se ainda em casa, na frente do espelho, com os olhos aparentemente abertos.

Ela sorriu... Estava de volta, a desbravar o próprio mundo...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Das coisas que eu entendo....

"Minha vida ta um furingo..."

Pois é, é isso que tá a minha vida, seja lá o que isso for!
Por isso mesmo decidi que não vou falar sobre mim... é algo pessoal demais e não to querendo tocar no assunto, ainda ta muito complicado na minha cabeça, quem sabe um dia...
Mais vale uma frase roubada: "Eu sai pra comprar sonhos e voltei com a realidade..."

"Mas tudo o que acontece na vida tem um momento e um destino
Viver é uma arte, é um ofício
Só que é preciso cuidado
Prá perceber que olhar pra dentro é o maior desperdício"

Do Seu Lado - Jota Quest

Há um tempo cantei essa música sem pensar ao certo no que ela realmente queria dizer, mas pensando bem, não é que o cara tem razão? Exceto por um detalhe: pode até ser que uma coisa ou outra aconteça tendo um momento e um destino, mas não tudo! Tudo pronto, tudo calculadamente certinho, tudo predefinido.... Acredito numa base, uma história talvez, um caminho traçado... Mas o modo como caminhamos, o tempo que permanecemos, e se escolhemos realmente esse caminho ou um outro atalho, já faz parte do nosso livre arbítrio. Eu simplesmente não aceito a idéia de que quando algo dá certo ou errado foi apenas o destino, a vida é muito mais complexa para atribuirmos tudo ao mágico destino. É claro que muitas vezes acontecem coisas sem explicação que não tem como negar que uma força maior agiu, mas tudo da nossa vida... Isso eu me recuso a acreditar.

No mais, viver é uma arte... Uma arte para malabaristas, para equilibristas, é pra quem tem coragem... Um trabalho que às vezes requer muito esforço e nenhuma férias... O verdadeiro ofício de ser livre e feliz...

E requer cuidado... Uma palavra dita, um ato impensado, qualquer bamboleada pra fora da linha pode resultar num tremendo tombo...
É preciso cair e levantar, deixar os malabares baterem em nossa cabeça e recomeçar, tentar incansavelmente, exaustivamente, tentar outra vez... Aprender... A vida é isso, é como um cuidado calculado, um risco que no final das contas sempre vale à pena...

E você aprende que olhar apenas pro nosso umbigo não nos leva muito longe realmente, é preciso aprender a olhar para um todo, para um complexo, entender as necessidades alheias, mas tudo tem um limite, olhar sempre pela coletividade não dá!
Quantas vezes somos generosos, fazendo sempre em favor do outro, mas esquecemos a pessoa mais importante, nós mesmos, esquecemos nossas próprias vontades, esquecemos que temos que ser um pouco egoístas de vez em quando...
Eu sei que não da pra ter o rei na barriga, mas muitas vezes nos anulamos em favor de algo que nem sempre sabe reconhecer nosso valor.
Tenhamos então o equilibro de não apenas olharmos apenas para dentro de nós, mas saber olhar o outro, sem esquecer que o ensinado foi "amai ao próximo como a si mesmo", sem amar a si mais do que o outro, nem tampouco amar ao outro mais que a si mesmo...

PS: Desculpem-me a ausência, não há qualquer explicação...
Seria inútil explicar.
Meus sentimentos estavam exatamente ali...
No meu silêncio.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Fez parte do meu show....

Ando com novos planos para o blog, mas me falta tempo. Estou na reta final de um semestre, por isso peço desculpas pela ausência. Mas encontrei um desabafo meu, uma gravação que fiz enquanto conversava com alguém e, ouvindo, percebi que sairia um texto legal, então resolvi digitar. É um pouco antiga, mas achei digno, já que estou tão sem tempo pra coisas novas:

Ao telefone:

Eu sei, é complicado ter que escolher, e nessa escolha você perder.
É complicado o muro rachar e a casa cair... Uma casa que se demora anos pra construir e mais anos pra habitar.
É complicado andar a pé pelos caminhos sem saber onde vai dar.
É complicado a incerteza. O incerto dói mais que um não. Um talvez. Nenhuma resposta concreta... Nenhuma resposta... Todas incertas. Todas em vão.
Eu queria mesmo era falar do que vem acontecendo
Eu queria mostrar o que venho vivendo
O que tenho colocado dentro de mim
E socado na cara do espelho
Eu quero é mostrar, pegar na tua mão e dizer venha...
Pra esse lado
Olha o que você evita, olha que você tem medo
Sinta o que você tem evitado sentir
Eu quero te mostrar...
(...silêncio...)
Eu tenho procurado respostas.
Tenho culpado a pessoas que talvez nem saibam dos espinhos
Tenho procurado culpado num lugar onde são todos vítimas.
Vítimas das próprias escolhas, e do que querem pra si.
Vítimas do que chamamos de livre-arbítrio.
E se o próprio livre-arbitrio nos prende... O que poderia, de fato, nos libertar?